sábado, 30 de setembro de 2017

REFLEXÕES BIBLICAS DO PADRE RAIMUNDO JOSÉ

5º. DIA - CEGO DE NASCENÇA

A narração da cura de um cego de nascença contém muitos mistérios e muitos ensinamentos para nós. Através desta narração revelam-se para nós as coisas de Deus. Já no inicio do cristianismo, esta narração sobre o cego exercia uma função importante na catequese pré-batismal. E hoje, no tempo de quaresma, quando queremos renovar o nosso batismo, a liturgia nos manda este trecho sobre o cego de nascença. Tentemos também e nós, hoje, penetrar nesta narração para mergulhar nas coisas de Deus.

Caminhando, viu Jesus um homem cego de nascença. Esta constatação não se refere somente àquele episódio. É uma constatação com o significado universal. Ela diz respeito a cãs homem, a casa um de nós. Jesus, encontrou o homem cego de nascença. Cada um de nós era ou ainda é esse cego. E cada um de nós encontrou ou encontrará Jesus que há de devolver a vista. Isso não é uma metáfora, isso é verdade, isso é a realidade. As luzes verdadeiras, que ilumina todo homem, veio a este mundo. Na vida de cada homem já existiu ou virá esse momento, quando nós, como cegos, nos encontraremos com Cristo, que abrir-nos-á os olhos. E esse é o mais importante momento de nossa vida. A doação de vista já aconteceu varias vezes na vida. E ele realizar-se-á radicalmente no momento, quando passaremos da escuridão desta vida para a luz eterna. E para compreender melhor em que consiste este abrir dos olhos por Cristo, devemos compreender antes em que consiste a nossa cegueira.
         A nossa cegueira espiritual é inevitável, cada um de nós é tocado por ela (atingido por ela). Cada um é tocado (tangido) pelo pecado. E o pecado, na Sagrada Escritura, é chamado: escuridão, cegueira. E cada um carrega dentro de si mesmo as consequências do pecado e por isso é cego, sem vida. A nossa cegueira é dupla. Antes de tudo, não é capaz de perceber aquela luz que é o próprio Deus, que é Jesus Cristo. A nossa cegueira consiste nisto que nós enxergamos somente aquilo que é avistado pelos sentidos. No entanto, temos que transpassar pela cortina deste mundo para ver a luz verdadeira, que é Deus. Deus, que nos revelou por Jesus Cristo. A luz que veio ao mundo. Mas a trevas não a receberam. Muita gente encontra o Cristo, mas não reconhece n’Ele Deus. Isso é a cegueira da incredulidade.
         Há ainda outro tipo de cegueira: não somos capazes de ver a nós mesmos na luz. Cada um de nós carrega dentro de si a imagem de mesmo(a própria imagem). Mas ninguém tem capacidade de conhecer-se, conhecer a si mesmo em toda verdade. Geralmente, criamos em nossa alma uma imagem de nós mesmos e não no damos conta disso que essa imagem é falsa, uma fantasia, que isso é uma mentira, não somos aqueles, quem julgamos ser.  Seguidamente, alguém nos tira deste erro. Nós julgamos que somos inteligentes, sábios, e ele nos prova que somos ignorantes. Imaginamos que somos lindos, atraentes, e alguém nos dirá que somos feios. Mas esses são somente os fatos externos. Na realidade, a nossa cegueira penetra, estende-se muito mais profundamente. Cada um de nós carrega animadamente a imagem de si mesmo, a imagem criada segundo próprio gosto, contudo, não raramente defrontamos a verdade sobre nós. E aí nos enchemos de nojo e até de repugnância em relação a nós mesmos. Não somos capazes de aceitar-nos a nós mesmos. E por isso que não somos capazes de assimilar a verdade sobre nós mesmos, de novo recorremos a ficção, aos sonhos, a verdade sobre nós, porque nós verdadeiramente somos isso, o que somos para os olhos de Deus.
         O homem, se não tivesse um espelho, não poderia ver a si mesmo, somente alguém outro poderia lhe dizer como ele é, e o homem é assim, como o vê outro homem. Assim também ocorre com o nosso relacionamento com Deus. Deus nos vê e nós somos aquilo  que somos aos olhos de Deus e não aquilo que julgamos de ser. Somente isso, o que Deus sabe de nós é verdadeiro. E quando a imagem de Deus sobre nós se torne a nossa imagem, então nos apresentamos em verdade diante de Deus e diante de nós mesmos. Aí então será curada a nossa cegueira. Seremos curados da escravidão da mentira que vive em nos. E quem poderá nos livrar desta cegueira?
          E da primeira e da segunda cegueira(pois uma depende da outra) pode no livrar a luz de Deus. O pecado, contudo, não no permite conhecer a luz de Deus. E em conseqüência, essa impossibilidade de conhecermos a Deus não no permite de conhecermos a nós mesmos. E isso é um círculo vicioso. Somente Ele, Jesus Cristo, o nosso Salvador pode nos libertar desta situação. O Evangelho seguidamente operado é um sinal. E esse sinal nos diz, que Ele é para nós: Eu sou a luz do mundo. Ele, e unicamente Ele dispersa as trevas e a escuridão, unicamente Ele pode nos livrar desta cegueira. Unicamente Ele é a luz e sem essa luz não podemos conhecer-nos a nós.
          Voltemos ao cenário do Evangelho de hoje. Cristo age num modo estranho. Ele poderia simplesmente dizer: “vê!” E com a sua palavra curar o cego. No entanto Ele diz diferente. Faz lodo com a saliva, e como o lodo unge os olhos do cego e depois diz: “vai, lava-te na piscina de Siloé”, o que significa: enviado. O que significa tudo isso na sagrada escritura, a água é sempre sinal daquele que é enviado. E quem é enviado por Jesus Cristo? A resposta é clara: O Espírito Santo. O Espírito Santo sempre aparece no sinal de água vida. E aqui ainda encontramos esta palavra misteriosa: Siloé – enviado. Através deste sinal, Cristo quis sublinhar que a nossa cura de cegueira é a obra do Espírito Santo, o qual Ele nos enviará. E agora nos perguntamos: quando, em que momento de nossa vida isto aconteceu?  Na hora do nosso batismo. Naquele momento fomos lavados com a água. Mas essa água que nos purificou é o Espírito Santo, que nos foi dado naquela hora. É no batismo que Cristo, pelo sinal de água, envia o Espírito Santo a nossa interioridade. Recebemos o batismo quando ainda éramos bebês, quando ainda não usávamos a razão, mas com o tempo, crescendo como homens de fé, homens crentes, havíamos crescidos nesta fé como aqueles que retomaram a fé, homens crentes a vista. Graças a luz do Espírito Santo recebida, havíamos reconhecido os nossos pecados, podíamos celebrar o sacramento da penitencia, portanto, não fomos já totalmente cegos. Mas durante a nossa vida muitas coisas aconteceram com a nossa fé. As vezes, este fé desenvolve-se na vida juntamente conosco, mas há casos que nós nos desenvolvemos sob aspecto físico, intelectual, e a nossa fé enfraquece, esmorece e até perece. E não raramente no tempo de juventude perdemos a fé. E então, na raramente, caímos na segunda cegueira. De novo não conseguimos reconhecer a Deus e a sua luz; de novo, não somos capazes de conhecer a nos mesmos na verdade. Especialmente neste período de juventude criamos para nós a própria imagem, sonhamos. E isso acontece, às vezes, em tal grau que alguns passam a ser doentes mentais. Essas pessoas criam para si imagem falsa e se identificam com ela de tal modo, que já não são pessoas normais.
         Em nossa vida, pois há de chegar o memento que pela segunda vez temos que nos encontrar com Cristo. A fé da criança há de tornar-se a fé madura. Creio que muitos de vocês poderiam narrar da própria vida uma acontecimento deste tipo, quando reconquistaram a fé da infância perdida. Quando viveram o momento de uma extraordinária iluminação.
         Isto acontece em diversos modos. E nem todos devem viver isso num só instante, como iluminação. As vezes isso vem devagarzinho, gradativamente, como o nascer do sol. Talvez alguns conservam a fé desde a infância, enquanto os outros perderam-na e de novo a adquiriram. Mas uma coisa é certa: não há homem que não tivesse recebido a fé durante a sua vida. Isto está dito no Evangelho: “esta luz era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1,9).
         Se ainda este momento não aconteceu em tua vida, tem certeza de que mais cedo ou mais tarde ele virá. Quem sabe, talvez somente na hora da morte. Pode ser que ainda muitas vezes irás aproximar-te a esta luz e depois te afastar. Mas posso assegurar a cada um dos presentes aqui, nesta Igreja, que a luz verdadeira que ilumina cada homem, veio ao mundo. Quem ainda não viveu isso, isso viverá que no caminho da vida dele apresentar-se-á Cristo. Jesus Cristo encontrou no seu caminho e cego de nascença. Virá este momento, se ainda encontra Cristo. Jesus irá te ordenar, neste ou outro modo, lavar-te com água, isto é, Ele te dará o Seu Espírito, que é Enviado e Então abrir-se-ão os teus olhos.
         Mas ainda prestemos atenção a uma coisa. O cego lavou os seus olhos. E os outros o perguntaram como aconteceu isso que ele retomou a vista. “Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: Vai a piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo”. Quem é esse Jesus? Não o conheço. Algum profeta, homem que veio de Deus. Portanto, aquele cego não sabia ainda tudo, teve ainda assombrada a imagem de Cristo, e eis que vem um outro momento agora, momento pelo qual cada um deve passar na vida. Temos uma fé, mas temos que nos encontrar outra vez com Cristo. Quando Jesus encontrou, pela segunda vez o cego, parou diante dele e perguntou-lhe: “Credes no Filho do homem?”. O cego ficou surpreendido. “ Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?”. Disse-lhe Jesus: “Tu o vês, e o  mesmo que fala contigo!”. E o cego respondeu: “Creio, senhor” e prostrou-se diante d’Ele.
         Já aconteceu na vida que Jesus parou diante de ti e perguntou-te: “Crês no Filho do homem?”. Pergunta direta e pessoalmente: Eu, aquele que estou diante de ti e que falo, somente a ti e a mingúem outro, eu te chamo pelo nome, porque te conheço e te pergunto: “ Tu crês em mim?” E justamente isso há de acontecer: que nós temos que confessar: “Creio, Senhor”. Creio não num Deus dos filósofos, não numa força sobrenatural, não numa doutrina cristã, mas “eu creio em Ti”. Tenho que me colocar: “eu” diante “Tu”. Aquele e me pergunta: Eu devo acreditar n’Ele. Em nenhum dos homens, em nenhuma Igreja, nenhum sistema, mas tenho que dize a Deus: “Creio, Senhor”.
         E justamente para isso fazemos evangelização, para que todos pudessem dizer: Creio, senhor. Assim dizem já todos, os que na nossa frente ofereceram a Deus o testemunho da fé. Isso é possível, pois eu vivi isso, assim falam aqueles que acreditaram em Cristo.
         Jesus Cristo é o meu Deus?
         Temos que aceitar Cristo de novo como meu salvador, que me amou, que morreu por mim na cruz, que para mim pregava o Evangelho que quer introduzir-me na Luz, que quer ir comigo, que quer me pegar nos braços, como ovelha perdida. Assim temos que encontrar a Cristo, o Nosso pessoal salvador.
         Podes fazer isso hoje. Talvez amanhã, podes fazer isso em casa, numa solitária oração silenciosa, sem testemunhas. Quem sabe, talvez ainda hoje, esta noite, irás sentir uma inquietude e sentirás a necessidade de oração, então levantaras e começarás a rezar.
         Talvez o encontrarás amanhã, quiçá – daqui a muitos anos. Cada um tem o seu caminho. Se já estás sentindo este desejo de encontrar a Jesus neste modo e desta maneira acredita n’Ele, então, pós esta cerimônia, vem aqui em frente dos bancos para encontrar-te com a equipe evangelizadora. Ela dirá o que faremos no futuro próximo como iremos proceder.
E quem ainda não esta decidido, reze, Deus está muito perto. Nos separa d’Ele a distancia de somente uma oração. Pois há somente uma oração que aproxima a Deus: “Vem, Senhor Jesus!”

ORAÇÃO:
Senhor, Tu és a luz do mundo, nós somos cegos. Nós somos a escuridão. A minha fé é muito fraca. Não sou capaz de criar a verdadeira imagem disso, quem sou eu diante Teus olhos. Creio, Senhor, Tu surgiste no caminho; creio, que Tu me olhas, me penetras. Creio que Teu queres ser a minha luz. Tu, que recebeste o poder de enviar o Espírito Santo, mande-O ao meu coração. Que Ele se torne em mim a luz e para que nessa luz em possa conhecer. Creio que já me havias dado o Espírito Santo, mas faz que Ele se revele em mim com nova força, que se torne de nove a minha luz.
         Creio no teu amor. Os meus pecados, a escuridão, a minha cegueira, tudo te dou, tudo entrego nas tuas mãos.
         Vem, Senhor, sê minha luz, envia-me a tua luz. Amém.


Padre Raimundo José Ribeiro da Silva
Pároco de São João XXIII

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